terça-feira, 6 de janeiro de 2009

[Copa, peitões e um encontro casual]

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Nunca sou muito íntimo e pessoal aqui. Porque não sei exatamente com quem estou falando. Então, esse espaço é quase que só para mim, com todas as desculpas (como diz a piada: 2 milhões de blogs são 2 milhões de leitores). Mas eu trouxe uma boa história hoje, digna de ser contada. Conheci um senhor, com quase 70, que trabalhou no Copacabana Palace, durante 18 anos. Uma carona, no dia chuvoso de hoje, nesta cidade perdida no centro do nada, nos aproximou. Nunca havíamos trocado palavra, embora ele me servisse no mesmo lugar que freqüento. Eu disse, meio sem assunto, que ia ao Rio em março e ele se encheu de espírito. "O melhor lugar do mundo não é o Rio, é o Copa. Trabalhei lá". Mostrou uma carteirinha, lembrou de tanta gente que para mim só existe nos livros, filmes. Perguntei quem foi a mulher mais bonita que nadou na piscina do famoso hotel. "Jayne Mansfield". O trajeto era relativamente curto e o deixei numa parada de ônibus, a pedido. Sempre calado, com o olhar meio perdido, quase alheio ao mundo, ele mantinha, no bar, uma certa distância de mim, de todo mundo - tolos, na verdade. Nós nascemos decadentes, talvez. Ele viu reis, cantores, atores, esteve com eles na alegria de sua juventude. Talvez tenha falado alguma coisa com Frank Sinatra, Nat King Cole, Ava Gardner, Sophia Loren, Marlene Dietrich, quem sabe? Foi uma epifania e uma leve tristeza também. Gravei a imagem do documento na memória. Maldisse a passagem do tempo e a velhice. Estava quase chorando quando recebi um telefonema, de uma pessoa tão linda quanto a Jayne Mansfield. "Aquela americana dos peitões" foi o que ele disse sobre a atriz. E a gente riu junto. Como bons e eternos amigos. Hoje foi um dia inesquecível para mim.

4 comentários:

Caio Carvalho disse...

Realmente, as vezes estamos com pessoas que tem tanta coisa para contar mas não damos a devida atenção.

Quando minha bisa-avó morreu pensei nisso e agora, te garanto que as conversas mais enobrecedores e edificantes foram com pessoas com o dobro da minha idade e que nem o nome eu sabia.

Forte abraço. Continue com esse ótimo trabalho.

Laninha disse...

Vc às vezes não tem a impressão de q nasceu no "tempo" errado"? Eu tenho. Sempre acho q perdi alguma coisa, q viver em certas épocas devia ter mto mais glamour...
Mas como vc mesmo diz, a vida acontece agora, meras divagações...

Lutto T. Nebroso disse...

Ninguém é tão velho que não possa viver mais um dia, nem tão jovem que não possa morrer já. E só não envelhece quem morre. Esses são os meus clichês sobre o assunto. Bem, eu gostaria de chegar à velhice como esse conhecido, cheio de boas histórias e prazer em contá-las. Gostaria de ser respeitado em minhas limitações também. Eu tenho um filho e espero que ele não seja o primeiro a me deixar num asilo. Preparo o meu futuro com paciência. Sei que sempre romantizamos o passado, mas, que remédio? Antigamente, eu me lembro - e isso faz uns 20, 30 anos - as pessoas eram menos ansiosas, mais solidárias, mais corajosas e interessantes até. Acho que sabíamos conviver melhor também. Não sei, vou perguntar para o meu pai. E à minha bisavó também: que tem a ousadia viver e cuidar da casa aos 103 anos. Acreditam?

Lutto T. Nebroso disse...

Bisavó, não. Bisavó do meu filho. Acabei de perguntar a ele a idade da velhinha e ele me disse. Daí confundi. Foemau.